segunda-feira, junho 26, 2017

Proteger a estrada ou a floresta?

Durante anos sempre que se discutia a relação das estradas com as florestas o que estava em causa era proteger estas dos carros e dos condutores, quando se defendia uma zona de segurança, falava-se da limpeza do mato por causa do risco de os carros ou dos seus condutores provocarem incêndios. O receito não era que os incêndios queimassem os condutores, mas sim que os condutores queimassem as florestas.

Falava-se da necessidade de limpar o mato mas pouco de evitar a plantação de árvores junto das bermas das estradas, ninguém questionava se as boas sombras eram de carvalhos, pinheiros ou eucaliptos. Nunca ninguém questionou os abusos dos proprietários dos terrenos, que plantaram eucaliptos quase até ao alcatrão e em todo o país há milhares de quilómetros de troços em que as copas das árvores quase se unem por cima das estradas.

Nas autoestradas e itinerários principais cumpre-se a lei, mas nas estradas nacionais e municipais vale de tudo. Durante muitos anos as árvores na beira das estradas portuguesas foram uma boa receita da Junta Autónoma das Estradas, não admirando que nessas estradas ninguém respeite a lei. Há multas e autoridades para as aplicar, mas ninguém aplica a lei, é a corrida coletiva ao El Dorado do eucalipto como o foi do pinheiro ou de qualquer outra espécie florestal que dê dinheiro fácil, uma verdadeira febre do ouro nacional.

Agora o país percebeu da pior forma que as estradas não matam apenas com acidentes de automóvel ou que são perigosas apenas quando o seu mau desenho ou conservação povoam esses acidentes. O país viu que as estradas também podiam transformar-se em infernos e que em vez de serem os condutores a matar a floresta, ser a florestas a matar quem está na estrada.

Mas estabelecer uma zona de segurança dos dois lados das bermas de todas as estradas municipais ou nacionais significa cortar muitas dezenas de hectares de eucaliptos, sobreiros, pinheiros ou de outras árvores. Num país onde com frequência se mata por causa de um caminho, de um poço ou de uma oliveira, onde a posse da terra que é propriedade ancestral da família justifica a morte do vizinho, este é um problema quase sem solução. 

Os portugueses têm uma relação difícil com a propriedade fundiária, que é muito mais do que um bem económico, há uma relação psicológica que leva a que ninguém abdique de um metro quadrado de terrenos, impossibilitando qualquer reforma das florestas ou grandes progressos na agricultura. O emparcelamento é impossível e há centenas de milhares de hectares de floresta cujo cadastro está desatualizado há várias gerações. 

A nossa propriedade fundiária e a mentalidade de uma boa parte do nosso mundo rural é quase medieval e muitos dos que são vítimas dos incêndios, os proprietários de milhares de pequenas courelas, são também os grandes responsáveis por esses incêndios. 

Umas no cravo e outras na ferradura



 Jumento do Dia

   
Constança Urbano de Sousa, ministra da Administração Interna

A ministra da Administração Interna espera por conclusões técnicas para tirar as ilações pessoais que deve tirar. A ministra está a incorrer num erro inaceitável ao fazer depender uma decisão pol´+itica pessoal de um relatório técnico. Esta posição da ministra não é mais um erro de comunicação como é inaceitável.

É inaceitável, antes de mais, porque a comissão de técnicos não vai avaliar o processo de decisão ministerial no dossier do combate aos incêndios, vai sim avaliar o que foi feito no terreno e nesse capítulo a ministra não conta. Constança Urbano de Sousa não é bombeia ou guarda da GNR pelo que não faz sentido que venha a tirar conclusões pessoais em função do que se passou naqueles incêndios.

As responsabilidades de Constança Urbano de Sousa são de natureza política e as perguntas a que tem de responder a si própria para tirar as suas ilações pessoais são outras. Estava em condições de minimizar os erros e falhanços no combate ao incêndio? Teve conhecimento de insuficiências no sistema de comunicações da Proteção Civil e fez o que estava ao seu alcance para as superar? Foi-lhe informado do risco de incêndios muito graves e fez o que lhe cabia nessas circunstâncias.

São estas as perguntas que a ministra deve fazer a si própria e em função da resposta tirará as ilações que deve tirar. Se não fosse assim nas próximas eleições os portugueses só votariam depois de uma comissão técnica independente avaliar o desempenho governamental ou, então, as propostas dos partidos teria de ser previamente avaliadas por técnicos.

Constança Urbano de Sousa não foi para técnica mas sim para ministra e isso significa que a avaliação do seu desempenho enquanto ministra  é de natureza política. Esconder-se atrás de uma comissão técnica é mais um erro que a ministra comete.

«Se a comissão independente atribuir responsabilidades à tutela, Constança Urbano de Sousa garante que tirará "as devidas ilações"

A entrevista a Constança Urbano de Sousa foi gravada na sexta-feira às três da tarde. Na noite de sexta-feira foram conhecidas as respostas da Autoridade Nacional de Proteção Civil, reconhecendo falhas no SIRESP, assunto que é tema nesta entrevista. A atualização da entrevista não foi possível porque a ministra "não pretende fazer novas declarações sobre a matéria até receber o relatório circunstanciado que já tinha pedido ao SIRESP".» [DN]

domingo, junho 25, 2017

Semanada

Esta foi a semana em que o diabo veio (finalmente), estava combinado aparecer em Setembro ali para os lados do ministério das Finanças, mas acabou por aparecer em Pedrógão Grande, uma localidade que em poucas horas se transformou numa imagem do inferno. O pessoal do PSD que estava instalado a tempo inteiro no terreiro do Paço, esperando pela queda de Centeno percebeu rapidamente a nova oportunidade, mudou-se de armas e bagagem para a Administração interno.

Passos Coelho bem começou a encenação do político que não se aproveita da desgraça alheia, algo que já tinha feito com a crise financeira e com o Caso marquês. Mas a ansiedade dos seus deputados é tanta que desta vez o próprio Passos foi ultrapassado, propôs uma comissão técnica para avaliar os acontecimentos, mas o seu grupo parlamentar forçou um debate parlamentar sem quaisquer relatórios técnicos, só para aproveitar os acontecimentos.

Ninguém reparou, mas há uma figura grada do mundo autárquico do PSD que está a viver o seu próprio inferno, acompanhado de mais alguns companheiros. Hermínio Loureiro, homem forte de Oliveira de Azeméis e uma ponte entre o PSD e o mundo da bola está passando o fim de semana nas instalações hoteleiras da PJ

Umas no cravo e outras na ferradura



 Jumento do Dia

   
Luís Valente de Oliveira, mandatário do candidato populista

O que não faltou a Valente de Oliveira foram boas oportunidades de se ter demitido do PSD, podia tê-lo feito, por exemplo, quando Passos o ignorou na hora de preencher a vaga de membro da Comissão europeia. Chegar ao fim da carreira política e demitir do seu partido para apoiar um político que sofre de homofobia democrática talvez não tenha sido a melhor das ideias.

Podia ter-se demitido em oposição a políticas, opta-se por se demitir para não ser expulso.

«luís Valente de Oliveira enviou, esta semana, uma carta ao líder do PSD, Pedro Passos Coelho, a pedir a sua desvinculação de militante do seu partido de sempre. Na origem da decisão está o convite de Rui Moreira ao histórico social-democrata para ser mandatário da recandidatura independente “Porto, o Nosso Partido”. O presidente da Câmara do Porto confirmou ao Expresso que, tal como nas autárquicas de 2013, o seu mandatário será Valente de Oliveira, que já confirmou o convite e “autorizou que o mesmo fosse divulgado”, tendo ainda revelado que se desfiliaria do PSD para evitar embaraços políticos e eventuais processos disciplinares. Embora ainda não haja data do anúncio formal da candidatura, Rui Moreira fez questão de manter para as eleições de 1 de outubro o seu primeiro mandatário. 
Ao contrário do que sucedeu nas últimas autárquicas, em que manteve o cartão apesar do apoio a Moreira em detrimento do candidato do partido, Luís Filipe Menezes, Valente de Oliveira optou agora por abandonar o partido, esquivando-se a ser repetente num quadro de possíveis ameaças de represálias disciplinares.» [Expresso]

 Proteger as estradas ou proteger as florestas

Durante décadas o país plantou árvores nas bermas da estrada para sombra e para fins decorativos, as árvores pertenciam ao estrado que exploravam a sua madeira e mesmo a fruta ou frutos secos, como as amêndoas, era trabalho da JAE. Os tempos mudaram e os enormes eucaliptos e pinheiros nas bermas das nossas estradas transformaram-se em armadilhas mortais. Ainda hoje há muitas estradas onde um descontrolo na direção do carro pode ser pago com a morte.

Quando os incêndios se começara a multiplicar as estradas foram apontadas como inimigas da florestas, ninguém questionava se nas bermas haviam pinheiros, eucaliptos ou carvalhos, os ambientalistas ainda não dominavam a comunicação social, os estudos de impacto ambiental ainda não eram um excelente negócio para empresários e consultores que se iniciaram nas associações ambientais.

Os carros e os seus ocupantes eram inimigos da floresta porque com fagulhas ou beatas de cigarros provocavam incêndios. Era necessário proteger as florestas dos carros limpando as suas bermas. Só que faixas de terreno com quilómetros e quilómetros de terreno é muita terra mal aproveitada, a consequência é que estradas como a EN236 apresentam troços em que as árvores estãio tão junto às duas bermas que em caso de incêndio foram um túnel de fogo com centenas de graus.

Foi preciso uma combinação de fatores para que se concluam que afinal o importante não é proteger a floresta dos carros e das pessoas, mas sim proteger as pessoas das florestas e dos seus incêndios cada vez maiores, porque há mais floresta, e cada vez mais violentos porque há mais combustível.

 António Costa deve um pedido de desculpas

António Costa parece ter acreditado no sindicalistas dos impostos e ainda na oposição lançou uma cruzada contra aquilo a que se designou por "Lista VIP", chegou mesmo a dizer que o caso merecia um processo crime, o que vindo de alguém que tinha sido ministro da Justiça merecia alguma atenção.

Entretanto, a IGF investigou, o MP investigou e a AT investigou. A IGF fez o que lhe cabia fazer, fez o relatório da conveniência, aquilo a que designa por frete. Mais não era de esperar de uma instituição que pouco tempo antes tinha andado a vasculhar as mensagens de email de todos os funcionários do fisco, num processo que foi devidamente abafado, isto é, ninguém ficou a saber o que se passou.

Mas o MP concluiu que os funcionários que foram sacrificados por causa da lista VIP, a mesma conclusão chegou o processo disciplinar da AT. Isto é, é cada vez mais óbvio que vários funcionários foram vítimas de um processo sujo conduzido com o objetivo de prejudicar pessoas, aquilo que na Sicília se designa por vendetta. Alguns funcionários demitiram-se ( uma forma cínica de ser demitido) e António Costa chegou a primeiro-ministro,

António Costa caiu na esparrela e agora devia pedir desculpa aos funcionários cuja carreira ajudou a destruir e à própria AT, é o preço de ter alinhado no debate político de casos e casinhos.
      
 Um fim de semana mal passado
   
«O interrogatório a Hermínio Loureiro, vice-presidente da Federação Portuguesa de Futebol e um dos detidos na operação Ajuste Secreto da Polícia Judiciária (PJ), terminou na sexta-feira à noite, disse à Lusa fonte judicial.

Hermínio Loureiro começou a ser ouvido pela juíza de instrução criminal, Ana Cláudia Nogueira, cerca das 15h30 e saiu do Tribunal da Feira por volta das 23h00, regressando à cela da PJ do Porto, a fim de ai pernoitar pela quinta noite consecutiva, juntamente com os outros cinco arguidos detidos.

No sábado de manhã, a juíza de instrução criminal irá interrogar o ex-presidente do conselho de administração da Assembleia da República e ex-deputado social-democrata João Moura de Sá, que resolveu prestar declarações, apesar de inicialmente ter dito que não queria falar.

Para as 15h30, estão agendadas as alegações, devendo a decisão sobre as medidas de coação ser proferida apenas na segunda-feira, Antes de Hermínio Loureiro, a juíza esteve a ouvir José Oliveira, presidente da Concelhia do PSD de Oliveira de Azeméis.» [Expresso]
   
Parecer:

Com tanto incêndio no Porto  e nas autarquias e ninguém fala deste príncipe dessa combinação entre PSD, bola e autarquias, uma combinação que em tempos se uniu com o patrocínio de Santana Lopes, para ajudar Durão Barroso a chegar ao poder.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Aguarde-se por segunda-feira.»
  
 Um sindicalista estranho
   
«O arquivamento, noticiado nesta sexta-feira pelo Diário de Notícias, é para o presidente do sindicato, Paulo Ralha, um “verdadeiro milagre” por "branquear" os nomes apontados pela própria IGF como responsáveis, por acção ou omissão, pela “lista VIP”. Em causa estão quatro pessoas: o ex-subdirector-geral José Maria Pires, que autorizou o funcionamento do sistema num dia em que o director-geral estava ausente, o próprio ex-director-geral António Brigas Afonso e dois outros funcionários, a coordenadora da área dos sistemas de informação, Graciosa Martins Delgado, e o chefe de equipa da área da segurança informática que lhe respondia, José Morujão Oliveira. “Nem o Omo lava mais branco do que isto…”, reage Paulo Ralha, pegando numa célebre campanha publicitária de uma conhecida marca de detergente para a roupa para descrever a actuação da AT.

Se há dois anos a IGF recomendou que fossem ponderados processos disciplinares aos quatro funcionários por causa de condutas “susceptíveis” de violar, em diferentes graus, deveres profissionais previstos na Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas, o entendimento que a AT faz do caso é o oposto: os visados agiram no cumprimento dos seus deveres de protecção de dados.

“Foi criado um mecanismo desta natureza e não há responsáveis”, insurge-se Paulo Ralha, considerando que quem fica em xeque é a própria AT. “A situação é absolutamente Kafkiana, põe em causa o princípio da igualdade, os princípios da democracia, e no final não há responsáveis”, acusa, lembrando que a mesma instituição que agora arquivou os processos dos dirigentes aplicou sanções a alguns funcionários (repreensões escritas suspensas por seis meses ou um ano) por terem consultado informações fiscais de figuras públicas, mesmo não se verificando violação da protecção de dados.» [Público]
   
Parecer:

Persegue os sócios do seu próprio sindicato.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Dê-se a merecida gargalhada.»

 Palhaçada moçambicana
   
«A auditoria às dívidas ocultas de Moçambique deixou por esclarecer o destino dos dois mil milhões de dólares contraídos por três empresas estatais entre 2013 e 2014, anunciou a Procuradoria-Geral da República (PGR).

"Lacunas permanecem no entendimento sobre como exactamente os dois mil milhões de dólares foram gastos, apesar dos esforços consideráveis" para esclarecer o assunto, refere a PGR em comunicado sobre a investigação feita pela consultora internacional Kroll.

Por outro lado, "a auditoria constatou que o processo para a emissão de garantias pelo Estado parece ser inadequado, sobretudo no que respeita aos estudos de avaliação que devem ser conduzidos, antes da sua emissão", acrescenta-se.» [Público]
   
Parecer:

Um procurador-geral tão nabo que não consegue dizer o que fizeram a dois mil milhões de dólares.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Sugira-se ao pobre diabo que beba água.»

 A vez dos barrosistas
   
«Mas o apoio do barrosismo à lista anti-Passos não fica por aqui. Outros três membros do Executivo de Barroso destacam-se na lista de subscritores da candidatura de Sarmento. Com relevo para José Luís Arnaud, que foi o braço-direito de Durão, depois de ter sido secretário-geral do PSD durante a presidência de Marcelo Rebelo de Sousa.

Maria da Graça Carvalho, ex-ministra da Educação, e Pedro Roseta, ex-ministro da Cultura (e dirigente da distrital de Lisboa nos anos 80) estão igualmente entre os subscritores da lista de Morais Sarmento.

O antigo ministro da Presidência, que nos últimos anos foi várias vezes apontado como putativo candidato à chefia do PSD, apresentou na sexta-feira a sua candidatura e assumiu a oposição a Passos, defendendo o surgimento de um "novo PSD".» [DN]
   
Parecer:

O Morais Sarmento ainda vai passar a perna ao indeciso Rui Rio.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Espere-se para ver.»

sábado, junho 24, 2017

Impaciência

Passos fez com os incêndios o que no passado já tinha feito com processos judiciais, numa primeira fase evidencia o politico que não é oportunista para ganhar simpatias e credibilidade, numa segunda fase esquece o que disse e torna-se no político oportunista, nocivamente para conseguir votos. Com os incêndios repetiu a primeira fase da encenação, mas nunca saberemos se iria ou não repetir a segunda fase, respeitando as vítimas dos incêndios.

Nunca o saberemos porque a sua bancada parlamentar, devido a muita impaciência, não permitiu. Passos visitou a Proteção Civil,  propôs uma comissão técnica e pediu uma audiência a Belém, mas não teve tempo para mais, o grupo parlamentar do PSD forçou-o a agendar um debate que, como se sabe, servirá apenas para um espetáculo de peixerada da mais miserável.

Compreende-se a impaciência dos deputados, com o tempo as emoções dão lugar à racionalidade, as imagens fortes dos jornalismo cedem o passo a um debate sério, os bombeiros cedem o passo aos que terão de ajudar as populações a reconstruir o que foi destruído. É agora que poderão ganhar alguns votos.

Estes deputados representam os caciques locais, uma imensa tei de interesses distritais e locais e com a queda das intenções de voto no PSD em forte queda, há um sério receio de se perderem muitos lugares, muitos deixarão de ser autarcas, de ser administradores de empresas municipais ou assessores. São dezenas de milhares de militantes que perdem os seus lugares e que verão a sua forma de vida arder com uma derrota eleitoral.

Isto significa que não é com os que sofreram com os incêndios de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Góis que essa gente está preocupada. Os que querem salvar à custas dos que morreram são os que vão ficar queimados com uma derrota nas eleições autárquicas.

Umas no cravo e outras na ferradura



 Jumento do Dia

   
Miguel Pinheiro, jornalista do Observador

Quem lê o título do artigo deste jornalista do Observador é levado a pensar que alguém tentou calar os jornalistas portugueses, algo que, felizmente, este corajoso jornalista, tal como uma boa parte dos jornalistas vivos da nossa comunicação social não sabem o que é. Ninguém neste país, governo ou oposição ou mesmo os bombeiros ou polícias incomodaram os jornalistas ou condicionaram o seu trabalho. O contrário talvez, não foram raras as imagens de bombeiros e agentes da autoridade pedindo para que os jornalistas os deixassem trabalhar.

Também se ficou com a impressão de que os centros de comando de combate ao incêndio eram centros de imprensa e que os que alia estavam tinham por função recolher notícias para alimentar o jornalistas ou que acompanhavam os incêndios para informar as televisões sobre os locais onde podiam obter as imagens mais chocantes.

mas suscitar esta questão neste momento pode revelar uma intenção um pouco mais manhosa, tenta-se passar a imagem subliminar de que alguém quer calar a verdade. Trata-se de uma mentira, nunca se viu um incêndio com tanta informação para os jornalistas. Ouviram-se muitas criticas mas não vieram de governantes, políticos da oposição e autoridades no local, viera de pessoas que se indignaram ou, como sucedeu, com o trabalho de Judite de Sousa, de outros jornalistas.

É informar entrevistar um homem poucas horas de ter visto a mulher e duas filhas morrerem em consequência de uma decisão sua' Isso é notícia? A vítima estava em condições de decidir o que seria melhor para ele naquele momento ou muito simplesmente se aproveitou a vulnerabilidade quem sofria para vender mais edições do Público.

É informar  entrevistar o sogro de uma vítima cujo cadáver está ali ao lado? É informar perguntar o que pensam de estar ali no chão a aguardar que as autoridades os retirem a familiares em sofrimento?

É sobre este género de situações que o jornalista do Observador se devia pronunciar em vez opinar sobre críticas as jornalistas sem referir quais as pessoas que fizeram as críticas que merecem a sua opinião. Diz que quem regressa dali não volta a ser o mesmo e tem toda a razão, mas regressa para o conforto do seu lar, para a comodidade da sua redação e para os braços dos entes queridos.

Mas como ficam aqueles que foram tratados como animais de circo para sucesso dos jornalistas? Como fica o homem que foi exibido a toda a página do Público dizendo que tinha mandado a família para a morte? Como fica o senhor que estava apático ao lado do carro onde tinha morrido um genro? Como estarão as senhoras cujos familiares eram cadáveres aparentemente esquecidos pelas autoridades? Não, não importa como esses ficam e é melhor não criticar os jornalistas porque eles têm o poder de destruir quem os critica ou, muito simplesmente, os políticos de que eles ou os seus patrões não gostam.

Não caro Miguel Pinheiro, ali para os lados de Pedrogão foram vistos muitos bons jornalistas, mas também andou por lá gente a ganhar à conta da desgraça alheia, os abutres. E não foram apenas os que andaram a roubar nas aldeias abandonadas, em matéria de abutres a nossa fauna é mesmo muito diversificada e, infelizmente, ao contrário de toda a biodiversidade queimada, essa fauna não foi queimada pelo fogo.

«Este texto não é corporativo. Ou antes: é. Ou melhor: é mais ou menos. No meio de tudo o que tem acontecido, a última coisa que eu queria era escrever sobre jornalistas. Mas tem mesmo que ser, porque, nos últimos dias, regressou a velhíssima caricatura do jornalista-abutre. Aqui no Observador, por exemplo, Miguel Tamen seguiu esse tortuoso caminho; no Público, a quota foi preenchida por António Guerreiro; na SIC Notícias, por José Pacheco Pereira.» [Observador]

 Agora dava jeito um cata-vento

O que dava jeito a Passos Coelho é que o Presidente da República mudasse de opinião cada semana, que na semana passada estivesse solidário com o governo face à crise dos incêndios e que esta semana se juntasse à oposição oportunista para crucificar o primeiro-ministro ou, melhor ainda, atirá-lo para o fogo do inferno, a lembrar o desejo do líder do PSD que o diabo aparecesse no país para o ajudar a chegar ao governo. Digamos que o que dava mesmo jeito a Passos Coelho era que Marcelo fosse mesmo o cata-vento que um dia ele sugeriu que era.

sexta-feira, junho 23, 2017

Os DDT da agricultura

Imagine que herdou 300 ha de terrenos sem aptidões agrícolas, algures no meio da serra ali para os lados de Góis ou da Pampilhosa da Serra. Trata-se de uma grande extensão, com difíceis acessos, de encostas pedregosas. No passado talvez pudesse plantar oliveiras ou mesmo semear algum cereal menos exigente, aveia ou centeio, para alimentação de animais. Nos dias de hoje esses terrenos não têm valor económico por não assegurarem padrões de produtividade compatíveis com os custos que a produção agrícola exige atualmente.

Resta deixar crescer o mato ou florestar, mas se crescer o mato pode ser acusado de não limpar os terrenos e ser multado por isso, quase que é forçado a florestar. Trezentos hectares é uma extensão com um terço da dimensão do Parque Florestal de Monsanto, a grande mancha verde da capital. Florestar uma área desta dimensão implica construir caminhos, limpar os terrenos, recorrer a máquinas e trabalhadores para fazer buracos, preparar o terreno e assegura a rega durante algum tempo, para além de adquirir milhares de pequenas árvores.

Resta escolher que árvores plantar, terá de escolher espécies vegetais resistentes aos fogos e de crescimento lento ou por espécies vegetais de crescimento rápido. as primeiras oferecem vantagens ambientais e ainda que sendo mais resistentes ao fogo não deixam de ser vulneráveis a incêndios, para além de doenças e pragas, mas nenhuma companhia de seguros aceita cobrir-lhes os riscos. A sua exploração só ocorrerá daqui a três ou quatro décadas, mas muito provavelmente as árvores só servirão para produzir lenha, isso se, entretanto, os ambientalistas não conseguirem uma lei que determina que essas espécies são protegidas, nesse caso a sua floresta servirá apenas para ornamento ambiental, cabe-lhe a si cuidá-la sem benefícios.

Tem uma boa alternativa, vai a uma empresa de celulose que lhe assegurará a plantação da florestas de eucaliptos a troco de uma parte da produção. Há ajudas públicas para a plantação do eucalipto e graças ao fato de se tratar de uma árvore de crescimento muito rápido em breve começará a receber receitas muito apreciáveis. 

Vai optar pelas espécies resistentes ao fogo ou pelo adorado eucalipto?

É óbvio que vai optar pelo eucalipto e é isso que explica que em poucas décadas temos uma percentagem de área com eucalipto provavelmente muito superior à da Austrália. Isso explica que tudo vale na plantação do eucalipto e que a estrada nacional 236 tivesses eucaliptos plantados quase até ao limite do alcatrão. Basta ir ver as fotografias de satélite do Google Maps para se ver que na região de Pedrogão e Góis há muitas estradas que quase não se deixam ver por estarem cobertas pelas copas das árvores.

Como é possível que as celuloses beneficiem deste ambiente favorável à sua atividades sem regras? Porque as celuloses estão para a agricultura como a banca estava para as finanças, se os banqueiros deram os donos disto tudo na economia e nas finanças, as celuloses são são os donos disto tudo no mundo rural. Da mesma forma que os ministros das Finanças se curvavam perante as exigências dos banqueiros, desde o Eng. Álvaro Barreto que quem manda nas florestas portuguesas são as celuloses.

Ainda há poucos dias o lóbi das celuloses, através da CELP, a sua Associação da Indústria Papeleira Portuguesa fez publicar anúncios pagos na imprensa criticando a reforma florestal, diziam que:

"A fileira industrial baseada no eucalipto tem sabido aproveitar os recursos naturais de que o país dispõe [...] utilizando uma espécie bem adaptada, e tem-no feito de forma exemplar, responsável e com total respeito pelo ambiente", argumentou a CELPA, defendendo que a proibição "prejudica os produtores florestais, provoca perda de competitividade da indústria da pasta e papel e contrai a economia do país".

O anúncio, que usa uma linha de argumentação muito semelhante ao das tabaqueiras em relação aos malefícios do tabaco ou das petrolíferas no que se refere ao aquecimento global, foi publicado no dia 21 de Abril, no mesmo dia Capoulas Santos, numa demonstração de grande preocupação com as críticas das celuloses, assegurava que continuaria a apoiar o eucalipto. Porque será que agora que se ouvem tantas vozes criticando os abusos das celuloses os senhores da CELPA que têm tanto dinheiro para pagar anúncios, optaram por um silêncio cobarde?

Umas no cravo e outras na ferradura



 Jumento do Dia

   
Pedro Pimpão, deputado

Para Pedro Pimpão o soldado da GNR de castanheira de Pera é membro do governo e António Costa deve ser responsável por tudo o que qualquer agente da autoridade faça.

«Os deputados do PSD que estiveram no terreno e nas zonas afetadas pressionaram o partido — na reunião da bancada social-democrata desta quinta-feira — a enfrentar a “propaganda” do Governo, apesar de o momento ser de luto. “Já chega!”, disse emocionado um dos deputados. Outro optou, também ainda abatido, por contar que a própria filha foi encaminhada pela GNR para a estrada da morte, mas decidiu seguir outra alternativa. Foram várias as vozes da bancada a insistir que está na hora de começar a escrutinar a ação do Governo.

O deputado Pedro Pimpão, eleito por Leiria e que esteve desde o primeiro dia no terreno, emocionou-se na reunião de bancada enquanto garantia aos outros deputados que o discurso oficial do Governo não bate com a realidade. “Custa-me ver toda esta propaganda sem respeito pelo que aconteceu. Sei que o PSD deve respeitar o luto mas já chega, é preciso que as pessoas saibam a verdade“, afirmou o deputado na reunião à porta fechada, de acordo com declarações recolhidas pelo Observador e que o Expresso também noticiou. A direção da bancada e a direção do partido estão a preparar-se para não dar tréguas ao Governo na busca de responsabilidades pelo que aconteceu.» [Observador]

 Sugestão

Se nos próximos dias aparecerem "especialistas", professores universitários ou políticos  a argumentarem em defesa das celuloses, com argumentos de que as críticas ao eucalipto não têm fundamento científico, que o problema é dos abusos e que o setor é fundamental para a economia, exijam-lhes que façam as suas declarações de interesses, que nos digam se de alguma forma ganham dinheiro com os eucaliptos.

 Estradas da morte

Vivemos num país onde muitas centenas de polícias e funcionários municipais se dedicam à caça às multas do estacionamento, somos perseguidos a toda a hora por agentes muito diligentes na hora de passar o aviso das multas, as instituições do Estado multa o cidadão comum por tudo e por nada.

Mas parece que o rigor no estacionamento não se aplica quando está em causa a proteção da ida, da mesma forma que em Lisboa se multa muito por estacionamento e muito pouco por desrespeito pelas passadeiras de peões, há centenas de quilómetros de troços de estradas onde a zona de segurança em que a lei proíbe a florestação não se respeita. É óbvio que os donos desses terrenos não querem prescindir neles, são os de mais fácil acesso e ao a madeira é só lucro. Mas as leis, os fiscais e os polícias servem para que o país não seja uma selva.



A imagem mostra a agora mal afamada EN236, que ficou conhecida por "estrada da morte". Trata-se de um troo na zona onde se registaram as mortes numa imagem do Google Maps anterior ao incêndio. Quem quiser pode percorrer essa estrada recorrendo ao Street View. Em muitos troços, como o da imagem os eucaliptos chegam à beira do asfalto, estando separados por uma vala de meio metro.

Ninguém viu isto na estrada EN236, o mesmo sucedendo em centenas de troços de estrada deste país? Quem fiscalizou a EN236, quem são as suas chefias imediatas que fizeram de conta que davam ordens para cumprir e fazer a cumprir a lei? O que levará a que muitos responsáveis e agentes da autoridade ignorem a lei num país com tantos e tão violentos incêndios.

O mínimo que se exige é que os responsáveis pela fiscalização deste troço sejam acusados de homicídio involuntário. Aposto que nas semanas seguintes vão chover multas e ordem para abater eucaliptos que estão na beira da estrada.

Não faria sentido aumentar aquela distância para vinte metros? Imagino que os madeireiros e as celuloses não gostariam, mas que se danem, à frente dos seus interesses está a segurança dos portugueses.

      
 Não deixar morrer
   
«Toda a gente está a falar da tragédia de Pedrogão. Muitos se lembram da última vez que se falou da última tragédia. Exprimem-se indignação, revolta, angústia e desespero. Às forças da inércia, da preguiça, do statu quo, do deixa-andar que acaba por dar em deixa-arder, basta esperar que tudo passe. Até acontecer outra tragédia e começar tudo outra vez.

Como se pode impedir este sistema cómodo e assassino de sobreviver? As forças do deixa-arder, para disfarçar, erguem-se a protestar também, para não destoar. As forças do deixa-arder tudo fazem para deixar desabafar quem quiser. É desabafando que eventualmente perderemos o fôlego. Depois do desabafo - contam esses poderes instalados - virão o cansaço, o abatimento, a desistência e a aparência externa, politicamente crucial, de indiferença e esquecimento.

Malfeitores são também os que não fazem nada ou só fazem o mínimo para parecer que respondem aos protestos. Malfeitores são também os que, no momento da tragédia, prometem fazer o que ainda não fizeram. Esses são os primeiros a esquecer as promessas. Só se lembram delas para voltar a fazê-las: as mesmas promessas com que nos calaram da última vez.

Como se há-de manter este saudável sobressalto em que tantas vozes discordantes se levantam? Como se há-de manter esta heróica teimosia em repetir o que já se gritou tantas vezes em vão?

É a quantidade de vozes que importa, até mais do que dizem ou divergem. É preciso que não se calem, para que não contem com o nosso silêncio.» [Público]
   
Autor:

Miguel Esteves Cardoso.

quinta-feira, junho 22, 2017

O eucalipto da Quinta da Coelha



O país tinha acabado de entrar na CEE, iria receber milhões de ajudas para o setor agrícola que durante mais de meia década beneficiaria de um regime de transição. Estava em causa uma profunda revolução na política agrícola. Portugal tinha uma economia atrasada, com grandes problemas na qualificação de uma população ativa excessiva, sem uso de tecnologias, com grandes problemas na estrutura da propriedade fundiária. 

Cavaco Silva era primeiro-ministro e escolheu um engenheiro civil da Soporcel, a grande empresa do setor da celulose, para o cargo de ministro da Agricultura do IX Governo Constitucional, que tomou posse em 1983, tendo sido renovado na pasta nos X e XI Governos Constitucionais, isto é,  foi o ministro da Agricultura do Cavaquismo, tendo assumido o cargo ainda antes da entrada de Portugal na CEE, condicionando, desde logo, todo o processo de transição. 

Com a entrada na EU deu-se início a um processo de transformação forçada e acelerada no setor agrícola. Nada se fez na estrutura fundiária, quase nada se fez na promoção do setor agroindustrial, nada se fez na promoção do regadio (Cavaco boicotou de forma militante o projeto de Alqueva), nada se fez na qualificação dos trabalhadores e empresários agrícolas, nada se fez no domínio das universidades e investigação no setor.

Assistiu-se muito simplesmente a uma redução acelerada da população ativa que envelheceu ou foi absorvida pelo próspero setor da construção e obras públicas, os agricultores ou emigravam ou iam para serventes de pedreiro. Se nas cidades Cavaco elogiava o crescimento do setor dos serviços e, em especial, a banca, na agricultura apontava-se a redução brutal da população ativa como símbolo da sua modernização.

Só que esta redução da população agrícola, que levou á desertificação do interior, não resultou do aumento da produtividade no setor, mas sim a uma aposta no setor dos cereais em prejuízo de quase todos os outros, designadamente, das carnes. Contado com o apoio da poderosa CAP os cereais foram os grandes ganhadores. Por outro lado, compensava-se o abandono das terras com a plantação de eucaliptos. A busca de ajudas para alimentar a máquina de propaganda cavaquista levou os governos de Cavaco a aproveitarem as compensações que a CEE dava a tudo o que era abandono de produções agrícolas e da pesca.

Para ter dinheiro para estradas feitas à pressa, como a IP5, que eram inauguradas antes das eleições, de que hoje Cavaco se gaba de ter sido um campeão, destruíam-se os setores da agricultura e da pesca. Matavam-se dois coelhos com uma cajadada, Cavaco ganhava as eleições e a SOPORCEl transformou-se num império, transformando um pequeno país do Sul num grande exportador de papel.

Hoje Cavaco está tranquilamente aos incêndios na sua luxuosa e fresquinha vivenda na Quinta da Coelha, certamente orgulhoso da sua obra e a culpar os seus sucessores pelos incêndios que por aí vão queimando os seus queridos eucaliptos. Só é pena que o eucalipto mais resistente ao fogo seja aquele que em tempo ganhou a alcunha de eucalipto da classe política.

Umas no cravo e outras na ferradura



 Jumento do Dia

   
Nuno Serra, deputado desconhecido especialista em incêndios

É preciso alguma imbecilidade para que um político vá visitar as operações de combate aos incêndios com o único objetivo de se aproveitar da presença de jornalistas para questionar a competência ou maturidade de quem está a combater os incêndios. É preciso também ter pouca vergonha na cara,

«deputado do PSD Nuno Serra afirmou esta manhã em Avelar, junto ao posto de comando da Proteção Civil, que viu "alguma descoordenação e desorientação" no processo de combate às chamas no norte do distrito de Leiria.

"Apercebemo-nos do forte empenho de todas as forças da autoridade, forças policiais e bombeiros no terreno, apercebemo-nos da fantástica solidariedade de todos que querem ajudar, mas também vimos algo que nos preocupou: alguma descoordenação ou desorientação neste processo", disse o deputado Nuno Serra, que fez parte de um grupo de deputados social-democratas que esteve hoje a acompanhar a situação no norte do distrito de Leiria, afetado pelo incêndio que começou no sábado, em Pedrógão Grande.

Em declarações aos jornalistas, Nuno Serra não quis apontar responsabilidades, mas assegurou que os deputados do PSD viram "muitas falhas de comunicação e alguma desorientação" na zona do posto de comando.» [Expresso]

      
 Ao especialista instantâneo em incêndios
   
«É solitário não se ser especialista instantâneo em incêndios por estes dias. Eu não sabia que vocês eram tantos na nossa vida: às vezes parece que por detrás de cada telemóvel e de cada teclado, de cada microfone e página de jornal, de cada câmara e em cada estúdio, há um especialista instantâneo em incêndios. A convicção de cada um é grande, as certezas fulminantes. Às vezes gostaria de fazer uma troca: ouvir-vos menos agora para ouvir mais os especialistas não-instantâneos (também conhecidos por "aqueles e aquelas que se deram mesmo ao trabalho de estudar e pensar prolongadamente sobre um determinado tema") durante o resto do ano.

Mas não. Nós sabemos as regras do jogo. A sazonalidade dos fogos determina a dilatação do perímetro de especialistas e a multiplicação dos espécimes opinativos. São eles o preço a pagar por podermos ouvir também os especialistas não-instantâneos (ou, como eu lhes prefiro chamar, "aqueles e aquelas com quem se aprende qualquer coisa") que estão cada vez melhores. Distingo-os à maneira possível aos pobres não-especialistas como eu: aquelas e aqueles com quem se aprende alguma coisa, além de não costumarem aparecer no resto do ano, são menos definitivos nas suas respostas, repetem muitas vezes que "é complicado" (para desespero dos entrevistadores) e têm, em geral, um ângulo ou abordagem que perseguem há anos, metodicamente: sabem que proteção civil não é idêntica a proteção ambiental, que o ângulo da desertificação não é o mesmo das alterações climáticas, que a prevenção e o combate não têm os mesmos princípios nem os mesmos objetivos, etc. Sabem que precisam uns dos outros para avançar no conhecimento e nos resultados.

Já o especialista instantâneo não precisa de mais ninguém. Fala ou escreve como se a sua torrente de opiniões apagasse os fogos. Quem dera. Mas a torrente de opinião muda de rumo todos os dias. No primeiro dia, choque e consternação. No segundo dia, escândalo e indignação. Ao terceiro dia, a sentença: nada vai mudar a não ser para pior, vai continuar a haver incêndios e mortes, o país é uma esterqueira. É aí que estamos agora.

Esta profecia tem a vantagem, para quem a profere, de não poder falhar. E, no entanto, eu acho que, na sua certeza, ela está errada. Porquê? Como não-especialista que sou, procedo por analogia.

Em tempos Portugal tinha altíssimos níveis de sinistralidade rodoviária. Sou suficientemente velho para me lembrar de quando os cintos de segurança se tornaram obrigatórios, de quando os testes de alcoolemia se tornaram banais, de quando as rotundas começaram a pipocar nas vilas e cidades do país. Em cada um destes momentos houve especialistas instantâneos que proclamaram instantaneamente a inutilidade destas e outras medidas semelhantes. Não pensem que exagero: lembro-me de um colunista importante e definitivo que, então nas páginas deste jornal, jurava que continuaria a guiar em excesso de velocidade porque a culpa dos acidentes era dos outros condutores piores do que ele. Mas a verdade é que, por virtude de muitas pequenas boas medidas, a sinistralidade rodoviária em Portugal diminuiu e muito. Fala-se pouco disso hoje: deixámos de ser uma mancha negra nas estatísticas. Desenvolvemo-nos.

Pois bem. Há uma variável na equação dos incêndios em Portugal que nós podemos mudar: desenvolvermo-nos mais. E, contra a torrente opinativa, acredito que queremos mudar essa variável, e que o vamos fazer. Um dia haverá menos fogos incontrolados (sim, apesar das alterações climáticas: é uma questão de nos prepararmos melhor para elas) e muito menos mortes em incêndios em Portugal. Esse dia será devidamente anotado pelas estatísticas e talvez passe no fim de um noticiário, dando um nó na garganta a quem perdeu os seus amados nos fogos e nunca os esquecerá. Sei disto porque os especialistas não-instantâneos (ou, como lhes deveríamos chamar, os especialistas) têm dito muitas coisas sensatas e implementáveis. Quanto aos especialistas instantâneos (ou, para ser preciso, não-especialistas) deveriam talvez ouvir mais. Para não dizer, como é costume deles, que podem sempre ir limpar matas.» [Público]
   
Autor:

Rui Tavares.
      
 Falta de respeito
   
«As mortes do fim de semana, vítimas do incêndio violento, ainda não estão resolvidas na cabeça de muitos moradores de Pedrógão Grande e Castanheira de Pêra, cansados da excessiva cobertura mediática da tragédia.

Em Vila Facaia, Maria, 86 anos, diz que já deu "quatro ou cinco entrevistas". Agora, "deixem-me em paz, que quero chorar a minha vizinha" que morreu, carbonizada, perto da Estrada Nacional 236-1, que todos agora chamam de "estrada da morte".

Não quer falar e refugia-se no xaile negro, à espera que a deixem. O cansaço é evidente, dantes pelo fogo que rondava as casas e agora pelo bulício diário de operadores de proteção civil, assistentes sociais e jornalistas.» [DN]
   
Parecer:
O trabalho dos jornalistas envergonha o jornalismo.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Vomite-se.»
  
 Debater a floresta
   
«O Parlamento sai esta quarta-feira do luto por Pedrógão Grande com uma sessão de homenagem às vítimas e uma certeza: há pressões, do Presidente da República e do Governo, para que os deputados aprovem antes das férias um novo pacote legislativo global com medidas que deem resposta às situações que a tragédia destes dias voltou a evidenciar.

Marcelo Rebelo de Sousa já articulou com António Costa e Ferro Rodrigues que o Parlamento não deve ir de férias sem legislar nesta área. O Presidente quer deixar os diplomas promulgados e o processo vai mesmo ser acelerado.

Terça-feira, no Fórum da TSF, Amândio Torres, secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, confirmou que o Governo quer ter as novas leis aprovadas pelo Parlamento "antes das férias". E o Presidente da República espera um pacote que cubra as várias vertentes em jogo, desde as questões penais às do ordenamento do território. "Sobre tudo, mas tudo é tudo", confirmou o Presidente da República ao Expresso.» [Expresso]
   
Parecer:

É preciso adoptar leis e medidas para corrigir um modelo florestral promovido pela dupla formada por Cavaco Silva e Álvaro Barreto, que se veio a revelar desastroso
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Aprove-se.»

 E ao quarto dia o homem pensou
   
«O presidente da Liga dos Bombeiros acredita que o incêndio que lavra desde sábado em Pedrógão Grande, Leiria, teve origem criminosa.

“O incêndio já estava a decorrer há cerca de duas horas quando se desenvolveu o problema com raios, que provocaram um conjunto de ignições a acrescer, efetivamente, aquele incêndio que já era de uma violência extraordinária”, declarou Jaime Marta Soares no Fórum TSF, esta manhã.

“Eu tenho para mim, até que me provem o contrário – e não sou eu que tenho de provar, têm que me provar que eu é que não terei razão –, que o incêndio teve origem criminosa”, acrescentou.» [Expresso]
   
Parecer:

Como é possível que só agora o presidente da Liga dos Bombeiros tenha sabido a hora a que começou o incêndio, depois de todas as intervenções que já fez.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se ao presidente da Liga qual é o seu papel nas operações.»

quarta-feira, junho 21, 2017

Tanatose política



A vida política portuguesa é dominada pelo empirismo, alguns dos nossos especialistas nessa nova ciência política fazem constatações, que rapidamente se transformam em regras inquestionáveis do funcionamento do sistema político. Um exemplo disso era a regra segundo a qual nas eleições os portugueses não metiam todos os ovos no mesmo cesto, quando um partido ganhava as legislativas o outro ganhava as presidências. A grande vítima desta verdade absoluta foi Fernando Nogueira, Cavaco Silva que ambicionava ser presidente acreditou na tese e fez tudo para o seu sucessor perdesse as legislativas. Afinal, estava errado, Nogueira perdeu as legislativas e ele teve de esperar mais dez anos para ganhar as presidenciais.

Outro principio inquestionável desta ciência política saloia é a de que não são os partidos da oposição que ganham as eleições, são os partidos que estão no governo que as perdas. É por isso que alguns “líderes da oposição” chegam a dizer que um sabem que vão ser primeiro-ministro, só não sabem quando. A oposição acaba por ser um par de anos de jantares de lombo assado, a não ser que o diabo esteja para vir, como sucedeu com a troika, ser líder da oposição é não fazer asneiras e esperar que quem governa as faça ou seja vítima de uma qualquer circunstância imprevisível.

A estas regras inquestionáveis junta-se ainda uma terceira que que terá sido estabelecida pelo Salazar. Conta-se que certo dia Salazar deu um conselho a um jovem político ambicioso, disse-lhe se queria ir longe na carreira política que fizesse de morto. É a versão salazarista de um dito popular que nos diz que “quando se abre a boca ou entra mosca, ou sai asneira”. Passos Coelho, que nos tempos de primeiro-ministro chegou a ser fotografado sentado sobre uma biografia de Salazar, parece seguir este princípio e desde o maldito relâmpago de Pedrogão Grande que anda a fazer de morto, ainda por cima tem a vantagem de no meio da confusão ninguém dar por ele, até ao momento não se sentiu a sua falta, ninguém lhe pediu para ajudar com a sua experiência e saber..

Passos cumpriu a sua obrigação, apareceu na Proteção Civil de Lisboa, longe da fumarada, só para marcar presença e para dizer que espera que tudo passe para ver se armar em madeireiro e ver se faz negócio com a madeira queimada. Até lá não fala, não telefona, não tuge nem muge, não corre o risco de dizer o que pensa, não vá sair-lhe alguma asneira, resguarda-se fazendo de morto. Até dá jeito suspender alguns compromissos autárquicos em solidariedade com os que sofrem, esta é a pior ocasião para falar, até porque não convém falar em autarquias não vá algum jornalista mais distraído questioná-lo sobre o que se terá passado lá para os lados de Oliveira de Azeméis.

A estratégia é manhosa e aparentemente inteligente, mas uma coisa é fazer de morto perante uma questão de lana caprina, outra é fazê-lo perante uma crise de dimensões nacionais. O mesmo que chamava piegas aos portugueses pode estar a passar a imagem de um político cobardolas e oportunista. Alguns animais têm a capacidade de se fazerem de mortos para escaparem de predadores, s animais que têm esta capacidade costumam virar-se de ventre para cima, alterar a sua coloração e por vezes até exalam o cheiro a cadáver, esta capacidade designa-se por tanatose. O comportamento de Passos Coelho é um caso típico de tanatose política.
  

Umas no cravo e outras na ferradura



 Jumento do Dia

   
Assunção Cristas, ex-ministra da Agricultura

Assunção Cristas vai pareceu finalmente, talvez porque o seu colega Amaral achou que Marcelo estava a dar beijinhos no dói dói. Diz que vai fazer todas as perguntas, faz muito bem, pode começar por perguntar-se a si própria o que fez durante os 4 anos em que foi ministra da Agricultura e teve a responsabilidade pelas florestas.

«Para Assunção Cristas, este "é tempo de luto", em que o partido "partilha a dor" e está solidário com quem perdeu familiares e amigos e com quem está ainda a combater as chamas.

Depois, "a seu tempo", afirmou ainda, haverá um debate sobre o que se passou nestes últimos dias e também para evitar que situações deste tipo se repitam.

Assunção Cristas garantiu ainda que o CDS está a seguir uma estratégia já definida pelo partido logo após o início dos incêndios, evitando a questão de dizer se estaria a seguir o pedido do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, para que se evitasse outra "frente" de debate.» [DN]

 José Miguel Júdice 

Um político enciclopédico, quem o ouviu chega à conclusão de que o incêndio na sua dimensão e local era previsível. Para ele o governo devia ter bombeiros e equipamentos de prevenção à espera de uma trovoada seca, devia ter esclarecido os que tinham ido à praia fluvial e que estavam passando o fim de semana prolongado na zona de que não deveriam ir para a estrada 236 porque iria ficar em chamas.

O seu tema de antena combinado na TVI24 foi uma montagem, a Judite Sousa começou por dizer que ios incêndios seriam um tema central, de seguida foi o próprio Júdice que disse perante uma jornalista atrapalhada que isso foi o que a TVI lhe pediu. Isto é, a TVI24 pediu o espetáculo a Miguel Júdice e este fez o frete. Era necessário lançar a dúvida depois da entrevista de António Costa.

Enfim, há muitas formas subtis de ajudar a direita a conseguir uns votos miseráveis. Desta vez a encenação combinada entre a Judice Sousa e Júdice nada teve de subtil.



 E agora

Extintos os fogos e enterradas as vítimas subsistirá uma questão, como recuperar o ambiente, ajudar os que viram a sua forma de vida destruída e ajudar os concelhos que já eram pobres e agora ficaram devastados? O mais certo é que quando os diretores de informação das televisões concluírem que o assunto já não atrai telespetadores vão ignorar o assunto. Se agora há uma grande avidez por informação de mistura com uma curiosidade mórbida, daqui a uns dias quem não sofreu com os incêndios fará o luto esquecendo e não querendo ser confrontado com o problema. A curiosidade dará lugar ao enjoo e os diretores de informação preocupar-se-ão com novos temas "de interesse".

Mas os que ficaram com as casas queimadas continuarão sem casa, os que viram os seu esposo, a sua esposa, os seus sogros, os seus filhos, os seus genros serem queimados continuarão a suportar a dor e para muitos além de terem partido os entes queridos terão de sofrer durante muitos anos as consequências económicas e ambientais do desastre. Mas serão esquecidos, as boas almas deixarão de fazer chamadas de valor acrescentado e ignorar os NIB de solidariedade, os jogos de futebol deixarão de ter  minutos de silêncio e os jogadores deixarão de usar faixas de luto, tudo voltará à normalidade e ninguém quererá saber da desgraça alheia. Dentro em breve estaremos todos na praia desejando que nesses dias volte a sentir-se o calor que se sentiu em junho.

É fácil apagar incêndios mas devemos exigir a este governo, bem como aos próximos que não se esqueçam dos que ainda vivem nas aldeias devastadas de Pedrogão Grande, que não os deixem de apoiar na luta que terão de travar com os diretores oportunistas das companhias de seguros, que os ajudem a reconstruir as suas vidas, quer no plano social quer económico.

Mais importante do que o exorcismo das causas ou o debate político oportunista a que já se assiste é perguntar o que vai ser feito e não apenas nos próximos dias ou semanas, mas sim nos próximos anos. Pergunta que também é válida para as vítimas dos incêndios na Madeira. Enquanto os políticos e jornalista procuram obter lucros no rescaldo da catástrofe,  nos concelhos atingidos pelos incêndios há pessoas sem comida e sem cozinha, animais domésticos abandonados, gado por alimentar, crianças para entreter. É um trabalho lono e pesado que não se esgota com os incêndios da comunicação social.



 A propósito do editorial do El Mundo


O editorialista do El Mundo, jornal de direita espanhol, está esquecido de quando os bombeiros portugueses foram importantes no combate a um dos maiores incêndios ocorrido em Espanha.

      
 A vez de Mourinho
   
«O fisco espanhol apresentou uma denúncia contra o treinador português. José Mourinho é acusado de lesar o fisco em 3,3 milhões de euros, no período entre 2011 e 2012, quando era treinador do Real Madrid.

A notícia está a ser avançada pela imprensa espanhola. De acordo com o El País, dos 3.304.670 euros, 1.611.537 milhões de euros dizem respeito ao ano de 2011 e 1.693.133 milhões de euros ao ano de 2012.

Segundo as autoridades fiscais espanholas, o treinador português serviu-se de uma sociedade estruturada, cuja data de criação não se conseguiu apurar, com o “objetivo de tornar fisicamente opacos os benefícios dos seus direitos de imagem”. O contrato entre José Mourinho e o Real Madrid foi assinado a 31 de Março de 2010, cidade que passou a ser a sua residência permanente. Perante esta mudança, adquiriu o estatuto de residente fiscal em Espanha.» [Observador]
   
Parecer:

Veremos se com Mourinho também vamos ouvir as vozes indignadas que se fizeram ouviir no caso de Ronaldo.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Prepare-se um grande exército para invadir Espanha.»
  
 Empreendedorismo à portuguesa
   
«Numa curta nota à imprensa, a Segurança Social faz saber que “tem conhecimento de que existem situações de falsas visitas de indivíduos no terreno que se fazem passar por técnicos da Segurança Social”, "apesar do momento de infortúnio que se vive, causado pelos incêndios de Pedrógão Grande e Góis”.

“Assim sendo, o Instituto da Segurança Social alerta as populações que os técnicos da Segurança Social no terreno estão devidamente identificados”, garante o organismo.» [Expresso]
   
Parecer:

Há sempre alguém com sentido para o negócio.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Lamente-se.»

 Temos candidata!
   
«A vice-presidente do PSD Teresa Leal Coelho, que falava aos jornalistas no final da reunião da Comissão Política Nacional na sede do partido, anunciou que os sociais-democratas vão desafiar os outros partidos a juntar-se nesta proposta.

"Esperemos que todos os partidos se juntem a nós para obtermos respostas irrefutáveis", afirmou, acrescentando que se trataria de uma comissão de peritos e não parlamentar, que seria constituída apenas por técnicos e funcionaria de forma independente do Governo e da administração pública.» [DN]
   
Parecer:

Digamos que esta candidata cuja candidatura já era defunta renasceu das cinzas.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se à senhora se acha que vai ganhar com os incêndios.»

terça-feira, junho 20, 2017

O diabo chegou a Pedrógão Grande



Ainda o incêndio fazia vítimas e já alguns jornalistas, certamente seguindo ordens dos seus diretores de informação procuravam pistas para culpas que alimentassem as labaredas do debate político. Se tudo tinha falhado por causa de uma falhas nas telecomunicações. A TVI até mandou a Judite Sousa explorar o drama e a sua subdiretora de informação não desiludiu, foi em busca de cadáveres e de familiares das vítimas e foi o que se viu, fez o que pediu que não fosse feito com a morte do seu filho, mas gente do povo não merece tais pruridos. 

Passos Coelho esperou e quando achou oportuno fez uma visita de circunstância aos serviços da Proteção Civil em Lisboa, não foi falar com nenhum bombeiro a cheirar a fumo, visitar algum ferido na unidade de queimados ou a ver alguma aldeia devastada pelo fogo. Convocou as televisões para a sua comunicação e no conforto citadino foi marcar a agenda política dizendo que ainda não era o tempo para o fazer. Este é o mesmo Passos que disse não se aproveitar de casos judiciais e que depois o fez sem qualquer pudor.

Se quisermos saber o que Passos quer que a nós pensemos que é o que ele pensa devemos esperar pelo fim do dia, mais oou menos à hora dos jantares de Leitão assado, que ele aparece. Mas se quisermos saber o que realmente ele pensa ou, muito mais certo, o que ele vai pensar, devemos ler os seus ideólogos de jornais como Rui Ramos, Helena Matos e José Manuel Fernandes, que escrevem no Observador, ou João Miguel Tavares que mantém uma coluna de espuma no Público. Se os lermos ficamos a saber qual a mensagem que Passos está a propagar ou que vai fazer sua, que o país vive de de propaganda e que os incêndios são a realidade resultante da competência.

Depois de todas as estratégias terem falhado, o défice foi controlado, o BE e o PCP não se deixaram seduzir por uma estratégia de coligação espontânea no parlamento, a direita europeia não veio em auxílio de Passos, a extrema-direita foi derrotada no Reino Unido e em França, as taxas de juro da dívida estão em queda, a notação vai deixar de ser lixo. Depois da aposta na vinda do diabo em Setembro de 2016 eis que parece que a vida do diabo, tão desejada por Passos Coelho, ocorreu em Junho de 2016 em Pedrógão Grande.

Passos e os seus ideólogos da extrema-direita chique não perderão a oportunidade de se aproveitarem da desgraça alheia, com notícias relativas a corrupção autárquica de altos dirigentes do PSD para abafar, há que centrar o debate das autárquicas nos incêndios. 

Umas no cravo e outras na ferradura



 Jumento do Dia

   
Hélder Amaral, deputado do CDS

É lamentável ver este deputado que ainda há pouco tempo foi dar beijinhos no "cu" do Eduardo dos Santos referir-se desta forma a MArcelo Rebelo de Sousa. A raiva, o ressabiamento e o oportunismo deviam ter limites.

«Haverá ilações políticas a tirar da tragédia de Pedrógão Grande – mas os partidos políticos, da esquerda à direita, decidiram, durante o fim de semana, adiar o apuramento de responsabilidades.

Contudo, há quem dentro dos partidos não queira que a culpa “morra solteira” e já peça consequências. Helder Amaral, deputado do CDS, utilizou o Facebook para expressar a sua solidariedade com as “gentes de Pedrógão Grande”, mas também lembrar que “não basta um Presidente da República dar beijinhos no dói-dói, e dizer que não há nada a fazer.”» [Expresso]

 A hora dos oportunistas

Pobre Rui Ramos, depois de andar mais de um ano a pregar no deserto aproveita-se dos incêndios para conseguir ganhos políticos. Enfim, de ideólogo da direita a peixinho limpa fundos que come a caca no fundo do aquário:

«O fogo de Pedrógão-Grande pode ter tido as origens mais extraordinárias, mas ocorreu numa região, numa época do ano e num contexto meteorológico em que os incêndios florestais não são extraordinários. É difícil, por isso, não admitir a hipótese de ter havido uma falha da protecção civil. Não se previu o risco de incêndio florestal, não se pôs a população em alerta para a possibilidade do fogo, não se prepararam meios para uma eventualidade, e quando o incêndio rebentou, não se tomaram todas as providências, como, por exemplo, controlar a circulação automóvel. Ao contrário do que disse o Presidente da República, não parece ter-se feito tudo o que se pôde.

Mas neste país, só há responsáveis para as boas notícias. Para a saída do défice excessivo, não faltaram pais, mães e até avós. Ninguém invocou a conjuntura externa favorável, nem o ajustamento de 2011-2014. Mas para uma tragédia como a de Pedrógão-Grande, os tomadores de responsabilidades são escassos. Nestes casos, prefere falar-se da natureza, da temperatura, do vento, da conjugação misteriosa de todo o tipo de fatalidades.» [Observador]

Vale a pena recordar Rui Ramos sobre a forma como o ministro do seu amado governo reagiu a uma situação de calamidade:



      
 Bola e autarquia
   
«Hermínio Loureiro, ex-presidente da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis e vice-presidente da Federação Portuguesa de Futebol, é um dos sete detidos pela PJ do Porto por suspeita de crimes de corrupção, prevaricação, peculato e tráfico de influência, avança o Jornal de Notícias esta segunda-feira. Com ele, foi também detido o actual presidente da câmara, Isidro Figueiredo, acrescenta a agência Lusa

Em comunicado, a Polícia Judiciária confirma que deteve sete pessoas, com idades compreendidas entre os 40 e os 60 anos, "sendo um autarca, um ex-autarca, um funcionário camarário e os restantes empresários de profissão e serão presentes a primeiro interrogatório judicial à competente autoridade judiciária para aplicação das medidas de coacção tidas por adequadas". O comunicado da PJ não refere nomes.

A Operação Ajuste Secreto realizou 31 buscas, "incluindo cinco camarárias e cinco em clubes locais de futebol". Nas operações participaram magistrados do Ministério Público e cerca de 90 elementos da PJ, esclarecem as autoridades no mesmo comunicado.» [Público]
   
Parecer:

Esta mistura entre autarquias e futebol é muito explosiva.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Aguarde-se sem mais comentários.»
  
 Pobre Judite...
   
«“No comments!” Foram estas as únicas palavras que a jornalista, diretora-adjunta de Informação da TVI, proferiu hoje à N-TV, quando confrontada com as críticas que muitos internautas, entre os quais figuras da televisão, têm feito desde domingo.

Em Pedrógão Grande desde domingo, onde apresentou o “Jornal da Uma” ao lado de Pedro Pinto, no cenário do incêndio que matou, até ao momento, 62 pessoas, Judite Sousa fez uma reportagem junto de um corpo carbonizado, embora tapado, dando voz à indignação dos familiares das vítimas pelo facto de as autoridades não terem, até então, autorizado a remoção dos cadáveres.» [N-TV]
   
Parecer:

Esta senhora às vezes é um bocadinho contraditória e faz aos outros o que não gosta que lhe façam a ela.

O que deve fazer um jornalista perante o sofrimento de um cidadão cujo familiar faleceu carbonizado e cujo corpo aguarda que as autoridades autorizem a sua remoção? A respotsa de Judite Sousa foi muito clara, deve exibir-se o corpo num total desrespeito por quem morreu e dar voz à indignação misturada com sofrimento dos familiares da vítima.

Judite Sousa sabia que a situação era de excepção e foi por isso que se deslocou ao local. Sabe que há normas legais quando ao reconhecimento dos óbitos e à identificação dos cadáver, o que obriga a perícia para que no futuro não sejam suscitadas dúvidas quanto à causa de morte ou à identidade. Sabe mas omitiu, preferiu dar voz à indignação motivada pelo sofrimento que tolda a lucidez.

Judite Sousa fez jornalismo? Não, o que fez foi promover a nova imagem da TVI24 que tenta disputar o mercado da CMTV.

Como era de esperar Judite Sousa foi criticada nas redes sociais, mas a jornalista não pediu desculpa, limitou-se a responder "no comments".
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Lamente-se.»